A Minha ida à Cimeira Latinoamericana y Caribeña de Educación Artística, em 20-23 de Novembro em Bogotá, Colômbia e ao Congresso de Belo Horizonte no Brasil entre 25 e 28 de Novembro fez-me repensar as minhas ideias sobre educação artística .
Conhecer a realidade da América Latina foi uma mudança radical na minha posição ideológica tanto sobre educação, como arte e educação artística. Dou agora conta de como a minha visão era ocidental e parcial e fico deslumbrada perante as inúmeras abordagens que existem no mundo real , as diferentes visões de artes , de artistas e de educadores. Creio que começo a libertar-me do posmodernismo . Até que enfim!!!
A cimeira de Bogotá foi organizada pela Ámbar Corporación Cultural para la investigación y el desarrollo del Arte, la Cultura y la Educación Artística; InSEA e WWA com o apoio da OEI, ela encadeou Numa série de cimeiras que têm sido organizadas pela World Arts Alliance ( InSEA, IDEA, ISME, WDA) em vários locais do mundo para discutir uma acção concertada na área da educação artística. Juntou especialistas , instituições, ONGs, organizações da sociedade civil . Poderia à primeira vista parecer confuso junta toda esta gente , e ao princípio também me fez confusão. Mas reflectindo agora sobre isso parece-me que foi um exercício tremendamente arrojado de pratica dialógica. Interessados e profissionais de educação artística sentaram-se lado a lado, discutindo questões essenciais que são comuns trazendo perspectivas diferentes , os investigadores das universidades, os responsáveis de secretarias de cultura e educação, professores de escolas privadas e públicas; artistas, animadores culturais, pessoas de empresas e serviços culturais. Senti que havia fossos entre as várias partes, senti que havia um desconhecimento total da abrangência da arte educação e das suas várias aplicações e funções na sociedade . Mas o que foi muito positivo foi que existiu um momento de encontro sem hegemonias. De diálogo construtivo entre as várias partes.
Nas mesas que tinham o nome lindo de conversatórios e nos grupos de trabalho aparecem todas as definições: educação pela arte; educação com a arte , treino de artistas, sensibilização estética, arte educação para a construção de identidades, para a educação para a cidadania, para a educação ambiental, pluridisciplinar, como eixo estruturante ,como instrumento , como veiculo, como conhecimento específico. Existiram discursos centrados na qualidade e excelência, no domínio da técnica, no desenvolvimento de inteligências , capacidades, criatividade. Outros, interessados na educação artística como formação de públicos, ainda outros falando do peso das industrias culturais na economia e necessidade de preparar a força de trabalho criativa através das artes. Alguns focando o valor único das artes para a compreensão do Eu e do mundo . Muitos focando as artes, a educação e a cultura para a transformação social.
O Congresso Latinoamericano e Caribenho de Arte/Educação, o 19° CONFAEB e o Encontro Nacional de Arte/Educação, Cultura e Cidadania organizado pela CLEA, InSEA, CONFAEB e AMARTE foi uma experiência inovadora de metodologias de diálogo a partir de questionamentos para grupos de trabalho. Juntou professores de Ensino fundamental e médio em escolas públicas e privadas, educadores artistas trabalhando em ONGs, secretarias de estado e cultura . e professores universitários.
Após os dois congressos sinto que esta vivência foi importante, não só questionadora como também activa, construtiva. De facto existe aqui, na América Latina e no Caribe uma atmosfera única e uma visão diferente da educação artística. Passam imagens na minha memória, relatos pungentes sobre um continente de extremos, de extrema riqueza e de extrema pobreza, de corrupção, de guerra cíclica, de violência, de limites extremo. Lembro-me da artista plástica Maria Rosalba de Bogotá que me dizia: ‘ Estamos fartos de enterrar as crianças, estamos fartos de violência, tivemos que começar por algum lado , pela arte, pela educação …’ Lembro-me dos 3 jovem estudantes de uma faculdade de Artes que todos os sábados durante um ano e meio instalavam um atelier de artes e educação ambiental na rua de um bairro pobre de Bogotá, ao lado das drogas e prostituição as actividades que fazem juntam crianças adolescentes e adultos, oferecem um espaço para lidar com a humanidade de uma comunidade destroçada pela violência quotidiana, lembro-me das artistas Claudia & Cláudia que tinham um atelier escola num bairro rico de Bogotá e me diziam todos têm direito à Educação artística tanto o pobres que frequentam as actividades promovidas por Ongs, Fundações, escolas públicas de secretarias de estados como os meninos da classe média-alta que ficam em casa vidrados no computador, na consola de jogos e na televisão enquanto os pais enriquecem mais. Passam-me imagens da orquestra Batuta onde todos os meninos e meninas pobres podem aprender a tocar um instrumento e de aquela escola de artes de uma Fundação bem subsidiada por entidades internacionais onde os meninos e meninas aprendem o silêncio, o corpo e a dança. Fico sem saber o que pensar , com a certeza porém d que a arte educação é um terreno bem maior do que eu o pensara alguns anos atrás. Não que aceite agora que seja panaceia para todos os males sociais , ou remédio miraculoso para a paz, a coesão social. Mas acredito cada vez mais que pode ser caminhos possíveis para que as pessoas se encontrem, reencontrem, aprendam a ser e a estar consigo mesmo e com os outros.
Lembro-me das conversas com o grupo de artistas, com o grupo de professores de artes da rede publica,e com os alunos de um Instituto de Educação (16-18 anos) em de Nova Friburgo. Penso nos dezasseis anos da Livian, moça com uma alegria de viver e de aprender tão grande como o infinito. E dessas conversas ficou-me um sabor a esperança e a vontade de mudança que não encontro no meu país demasiado ocupado a consumir o supérfluo e a marcar posição no PISA.
Penso nas visitas que fiz no Brasil a escolas oficinas de arte subsidiadas pelas municipalidades para actividades artísticas extra curriculares, de como me deslumbrei porque a realidade é tão diferente da Europa . Conversei com educadoras que estiveram na fundação dessas escolas , com responsáveis de secretarias de estados de educação e cultura, com alguns jovens que as frequentam. Conversei com muito actores dessas escolas, dessas oficinas, com as pessoas que trabalham no terreno, ouvi os seus problemas, as suas esperanças, pensei com eles hipóteses para a sustentabilidade dos projectos educativos e culturais que na maior parte das vezes dependem de poder politico com uma visão eleitoral limitada no tempo, dependem de apoios de entidades que não oferecem continuidade. Senti a instabilidade profissional, a instabilidade institucional como deve ser complicado projectar a longo prazo as actividades implantadas !! . Com um grupo de educadores e agentes culturais de S.Paulo e de Campinas senti como era importante essa continuidade dos projectos educativos e culturais, como era importante dignificar e valorizar a profissão do arte educador, como os arte educadores são agentes e transformação social.
Ana Angélica ensinou-me que a educação acontece em qualquer lugar, com o que houver nesse lugar, areia, terra, árvore, o conhecimento não precisa de malas, está na cabeça do educador. A Rose ensinou-me como a perseverança e o amor são importantes na arte educação, como é necessário estabelecer negociações nas comunidades com os agentes do poder local, com os media locais, com a famílias, com os funcionários , com os professores e educadores.
A Raquel, a Lorena, a Rosvita, a Rosângela e tantos outros educadores e educadoras ficaram no meu coração verdadeiras lutadoras num campo com poucas aberturas mas com inúmeras possibilidade. Lembro com saudade Halaix, Eltz, Carolina, Sónia, Luvel no atelier de Sónia em Bogotá, e fico pensando como na América Latina a arte educação tem responsabilidades e procura soluções para conflitos sociais, problemas ambientais, e ajuda as pessoas a encontrarem paz interior. Como arte educação para eles quer dizer transformação social.
Como eu gostaria de seguir as crianças e os adultos que frequentam as actividades de arte educação, de continuar seguindo estes educadores, como eu gostaria de acompanhar essas actividades e estudar o seu impacto a longo prazo!!! Será que algum outro investigador tem essa mesma curiosidade!!!
Fico pensando para mim, como o meu conhecimento é pequeno e o meu mundo redutor, como arte educação pode ser muito mais, pode ter enfoques tão diferentes e propósitos tão variados dependendo dos contextos , das urgências de cada país, de cada comunidade . Se calhar às vezes nem precisamos de falar artes, se calhar às vezes só precisamos de falar educação, se calhar poderíamos ver a artes de um modo diferente , longe das elites culturais , mais relacionadas com a vida real , mais abrangentes, mais facilitadoras do conhecimento e dos sentidos. Se calhar o fim da visão pós modernista é um caminho que já está a ser trilhado. E se calhar, eu encontrei as primeiras pegadas um pouco por todo o mundo na diferença e pluralidade, na aceitação de todos os caminhos por muito contraditório que me possam ter parecido um dia.