Participação
O Congresso de Beja reuniu duzentos e sete participantes oriundos de Portugal () , Espanha () , Brasi () l , Uruguai (1) , Chile (1), França (1), Moçambique( 1); Angola (1) . O congresso on-line reuniu 12 participantes do Brasil, México, Portugal e Argentina. Foi difícil ter uma representação significativa de outros países da América Latina por razões económicas e por falta de apoios em Portugal e nos países de origem. Vários Investigadores e professores de Colômbia, Cuba , Argentina e Costa Rica mostraram interesse em participar mas não puderam por falta de apoios nos seus países para a viagem. Profissionalmente a grande maioria eram professores do ensino superior mas também se viram representadas outras comunidades profissionais tais como professores do ensino secundário, psicólogos, animadores, formadores em serviços educativos de museus e fundações, educadores de arte em contextos de educação artística não formal ( por exemplo associações, centros culturais, teatros, escolas de arte) .
Esta diversidade profissional e de áreas profissionais foi positiva e favoreceu o que em meu entender foi uma mais valia no congresso: a pluralidade de vozes e a diversidade de experiências. Segundo um dos membros do Conselho Científico do Congresso Imanol Aguirre : ‘pero es importante que esa diversida de voces …. pueda expresarse con libertad, con rigor y con elegancia’.
Local/Global : Polifonias
O congresso revelou muitas preocupações locais, mostrou a diversidade, a pluralidade do nosso entendimento e da nossa vivência na educação e na educação artística. Acredito como Ana Mae Barbosa que esta pluralidade nos enriquece profundamente. Para Maria do Céu Melo: ‘Não se podem escamotear as diferenças que não são meramente vocabulares. Durante o congresso identifiquei quadros de leitura de ver o mundo diferentes. Andamos a ler livros diferentes… andamos a viver experiências diferentes porque em cada país as nossas preocupações são diferentes. Minhas… tuas… Nossas… Vossas… Sim, porque o que ouvimos não retrata o que em cada país acontece. Ninguém pode arrogar-se o direito de falar (ou representar) o seu país: Seja o Brasil que tem a dimensão de um continente, onde os discursos e as práticas sobre ‘ as realidades são múltiplas; seja Portugal tão pequenino e mesmo assim tão diversificado e provincial, seja Espanha tão grande… que tem vários países dentro. A tolerância e a humildade são actos/palavras matriciais do processo de criação artística. e a pausa, claro. Eu senti que neste encontro houve de facto polifonias’. Verificamos como práticas do passado e práticas do presente coabitam, como diferentes discursos e ideologias existem lado a lado. Como as finalidades da educação artística podem ser diferentes, partindo da arte educação como reconstrução social, da arte educação como crítica social, sempre falando da arte educação como um meio para desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Umas vezes instrumentalizando mais com funções sociais outras vezes com a psicologia da arte educação.
Arte educação e educação artística foram como de costume termos contraditórios que eu estou a usar como sinónimos mas que em certos contextos como no Brasil designam experiências diferentes e suscitaram algumas questões de fundo.
Rigor e qualidade científica: Urgência em elevar o nível das contribuições
Só a diversidade e a pluralidade não chegam para satisfazer a educação artística em contextos que queremos ibero americanos. Notou-se que existem muitos problemas de rigor e de qualidade nas contribuições apresentadas, mas o congresso serviu para detectar esses problemas. Essas preocupações apareceram em várias vozes, nos comentários de outros membros do Conselho Científico como Maria do Céu Melo e Fernando Hernandez
‘buscamos un formato en el que la palabra científico aparece muchas veces, a pesar de que casi otras tantas olvidamos esas prácticas analíticas, sistematizadoras o investigativas a las que se refiere Maria do Céu y a la que se refirió Fernando en sus conclusiones finales’.
Sentimos todos que é urgente caminhar para uma investigação mais rigorosa, uma explicitação maior das metodologias de implementação das experiências e uma crítica mais construtiva. Sentimos a falta da existência de práticas reflexivas e indagatórias por parte dos sujeitos envolvidos nas experiências, fossem crianças, professores ou artistas (práticas de diários reflexivos, diários de investigação-acção, discussão inter-pares (escritas ou orais), instrumentos de auto-regulação /metacomprensão processual, instrumentos de observação, etc.).
As Pontes
Mas o congresso queria ser muito mais do que uma amostragem de resultados de investigação, queria ser um observatório autêntico da educação artística e promover a construção do conhecimento e tal foi conseguido, mobilizaram-se pessoas de diferentes âmbitos e deu-se sobretudo a oportunidade de vivenciar propostas apresentas por gente modesta , como diz Joan :
‘esas personas que son capaces de trabajar para la mejora y no únicamente pensando en su curriculum, que son capaces de ofrecer mucho más de lo que exigen, que no pretenden dar lecciones a nadie y que su objetivo principal es compartir sus experiencias para construir colectivamente, …y que a su vez crean puentes con las realidades exteriores mientras construyen un proyecto compartido’.
Essas pessoas são a comunidade da educação artística, da qual eu, modesta professora do ensino secundário, faço parte. Sentimos que Universidades e Profissionais da educação artística quer seja em escolas, museus, associações, clubes recreativos ou outros locais andam de costas voltadas. Não existe grande impacto da investigação no terreno, não existe vontade muitas vezes das universidades de trabalhar com escolas . Não existem pontes entre artistas e educação e isso é sobretudo agudo em Portugal, foi notória a ausência de professores universitários de cursos artísticos portugueses, não houve um único especialista português em formação de artistas inscrito no congresso. Acredito que muitas comunicações e muitas discussões nos grupos de trabalho tenham de facto revelado problemas de medo ou ausência da crítica. No entanto houve muitas exposições importantes que trouxeram novas concepções do papel das artes na educação , de todas as artes e não só das visuais. A própria distinção entre as artes foi desafiada a partir dos contextos das artes contemporâneas onde o multimédia ganha cada vez mais espaço. O congresso serviu para lançar o desafio da construção de pontes entre as sub-comunidades da educação artística.
Foi também espaço para criação e parcerias para projectos futuros como por exemplo um futuro núcleo português de investigação em educação artística nos museus e uma proposta de master internacional de arte terapia. Através do diálogo e da partilha geram-se nós dentro da rede
O que observamos neste momento:
Podemos afirmar sem alguma dúvida que todos e todas estiveram de acordo no seguinte:
As artes são essenciais ao conhecimento humano, são praticadas por todas as sociedades, factores determinantes da cultura e do desenvolvimento psico-social do individuo, devem portanto fazer parte integrante de todos os currículos educativos e não podemos permitir que fiquem à margem ou fora da educação .
A educação das artes esta a viver um momento crítico e perigoso, está em risco de sair das escolas , não há lugar para as artes na visão de educação que se apresenta nos nossos contextos políticos, onde as escolas ocupam pouco destaque e a educação artística quase nenhum. Observamos uma grande tendência para a narrativa da educação artística como pedagogia da expressão, do lúdico, centrada na produção de experiências e não tendo em conta a aprendizagem.
Temos uma escola tecnicista moldada por um discurso educativo economicista. Um modelo prisão, um modelo armazém, um modelo passivo, de transmissão e recepção acrítica de informação. Uma escola ‘anestisiadora’ como diz Joaquim Luís Coimbra , uma educação artística frágil, deficiente por vezes traumatizante. Precisamos exigir uma escola de valores, uma educação artística bem feita, de qualidade e para isso temos que batalhar pela qualidade profissional dos educadores. No ensino primário e pré-primário a educação artística que existe falha muitas vezes por falta de quadros profissionais competentes.
Sentimos a necessidade de resistir activamente para criar outra narrativa de escola. Como comunidade temos que nos tornar vísiveis , temos que atacar em todas as frentes nas escolas, nos museus, em centros culturais, nas comunidades . Apostar na educação infantil , apostar na arte como elemento de reconstrução social, nas mudanças de baixo para cima , no processo artístico como processo de investigação.
As nossas estratégias de actuação são demasiado passivas, defensivas, baseadas em práticas sem contexto. Estamos a ser ignorados, se calhar já nem nas margens existimos, estamos de fora do discurso educativo e nem nos demos conta disso. Perdemos muito tempo a discutir superficialidades , existe pouca abordagem teórica existem confusões entre objecto de investigação com teoria e com procedimentos de investigação, não podemos confundir a teoria com procedimentos
Precisamos pensar os tempos e os espaços onde e como possamos estar presentes Precisamos definir estratégias de actuação, de resistência, de visibilidade, de ataque porque nós somos responsáveis pela educação artística e pelo que se está a fazer da educação artística nos nossos países, temos o dever de intervir , de tomar posições políticas fortes.
Um congresso diferente
Apesar de ter sido considerado importante o modelo de congresso adoptado é necessário afinar o modelo , permitindo a partilha prévia, e desenvolver práticas de crítica sustentada por esse conhecimento prévio. Só asssim, poderemos caminhar para a construção colaborativa de saberes que pretendemos. Deixo aqui a opinião de alguns participantes:
’Num espaço de crescente solidão que são as universidades, não me senti só em Beja. É um sentimento talvez egoísta, mas regressei ao meu espaço de trabalho sentindo que durante 3 dias estive “em casa”’ (Maria do Céu , de Portugal).
Senti que este congreso fue muy trasformador, que el viaje de regreso fue distinto, me siento distinta y hay muchas cosas que senti que mi voz no puede decir porque me siento limitada por las palabras…. (Andrea , desde Chile).
Muchas gracias por compartir vuestro trabajo a todos los participantes del congreso ….Ayer, totalmente inmersa en mis clases de final de curso, me di cuenta de la importancia de pensar y reflejar a través de otros espacios las aportaciones y los retos de futuro de la red.
( Desde Barcelona, Montse) .
…gracias por darnos la oportunidad de poder compartir con todas y todos vosotros esos dias en Beja. Gracias por todas las aportaciones, gracias por vuestra amabilidad y buen hacer, gracias por los coffee-break que nos han hecho crecer un poco más, gracias por poder contactar con otras personas con los mismos intereses, gracias por ese final catártico, final en formato acción artística…, creo que ha sido un final muy coherente con la esencia de nuestras áreas, gracias, gracias y gracias!También nos hemos dado cuenta que ahora, al estar viniendo para aqui, ya no somos los mismos despues de vivir estas
experiencias, somos….MUCHO MEJORES! (Desde Santiago el grupo Paseantes, Galicia)
Gracias por ser capaz de abrir caminos. Creo que es lo mas difícil y a pesar del riesgo, de las críticas, de la inseguridad… me parece que es ésa la actitud y el estilo de trabajo que mejor pueden construír. Vuestro trabajo para mí ha supuesto una aportación profunda a nivel personal
y profesional que me permitirá renovar muchas cosas (desde Salamanca, Carmen).
A Criação da Rede
Foi criada a rede ibero americana de educação artística a partir do alargamento da antiga rede ibérica de educação artística, Um grupo de trabalho reuniu durante dois dias para definir os espaços e âmbitos de actuação. Deliberou-se que:
É rede rizomática, móvel, organizada a partir de nós tanto geográficos, como temáticos, por âmbitos etc.
Uma rede livre, independente, onde cada espaço de grupo pode funcionar autonomamente.
Uma rede que pretende criar instrumentos que recolham as inquietudes, as dinâmicas distintas, diversas, variadas no âmbito da Educação Artística, Arte Educação, Educação para a cultura visual.
Os Espaços de encontro da rede são: um espaço do portal ( em construção em http://www.rede-educacao-artistica.org/) ; uma revista on-line ( em construção) e congressos trienais.
Em guisa de conclusões
Vou pegar nas palavras de Ana Rocha, diligente membro do Conselho de Organização do congresso que esteve com os olhos e os ouvidos bem abertos durante o congresso, como jovem artista deixou-nos um testemunho imparcial sobre o que ela sentiu como conclusões do congresso, transcrevo algumas apenas:
A necessidade de criação de quadros profissionais nas áreas abordadas
O alargamento a disciplinas de acção visual/campo visual
Os avanços positivos da rede, a Rede como – work in progress
A importância de chegar a outros através da partilha de conhecimentos
O processo artístico também é investigação
Debater outros binómios
Fazer/tornar as análises de investigação de forma mais científica, para se tirar ideias mais clara, mais rigorosas para os sectores da educação.
Abrir outras possibilidade de participação e acção
Agir do presente para o futuro, e não do passado para o futuro
Motivar para uma avaliação e investigação do trabalho/experiência/realização artístico
Envolver outros meios da educação para podermos ter mais presenças participativas
Acabar com o ‘lixo’ académico
Levantar e debater as ‘questões incómodas’
E deixo aberta a discussão sobre as suas palavras. O congresso abriu estas portas ao diálogo construtivo, formalizou a REDE, lançou um debate sério e detectou necessidades que é preciso levar em conta , estas são as minhas conclusões